O cardápio indigesto do tradutor(Fritz Utzeri, Jornal do Brasil, de 7 XI 2003)
Tenho o maior respeito pelos tradutores. Acho muito mais difícil traduzir
do que escrever, porque traduzir bem é reescrever, recriar a partir do zero,
sem ser literal, embora permanecendo estritamente fiel à obra. Imagino o
Antonio Houaiss tendo à frente o volume, em inglês, com o início de Ulisses:
''Sobranceiro, fornido, Buck Mulligan vinha do alto da escada...''.
Sobranceiro! Se começasse a escrever um livro, começaria com sobranceiro? E
imaginem um alemão que resolvesse traduzir Guimarães Rosa (o que foi feito,
mas ignoro o nome do herói). Abre o Grande sertão: veredas e a primeira
palavra com que se depara é: ''Nonada''. E agora? Como é ''nonada'' em
alemão?
O Magu, que anda sumidíssimo depois que o Flor do Lavradio entrou numa
reforma que não acaba, pensou em desistir da profissão de repórter e
suicidar-se depois que teve que explicar para o editor do Montbläat, o
jornal em que trabalha, o que vinha a ser ''subteto do Poder Judiciário''.
Experimentem traduzir ''subteto'' numa língua racional qualquer, como o
sueco, e vejam o que é bom para a tosse.
Para mim, ser tradutor é chegar a um patamar da intelectualidade ao qual
jamais terei acesso. É gente como os Marcos, o Santarrita e o de Castro, o
Leo Schlafman, a Eliane Zaguri e - por que não? - simplesmente o
incomparável Millôr. Tenho uma amiga, Kristina Michaellis, que também se
dedica a traduções. Traduziu pacientemente as cartas de meu pai à minha mãe
pouco antes dele morrer, na Segunda Guerra. São cartas apaixonadas, mas onde
o terror do nazismo se insinua, banalmente, nas providências que ambos
discutiam para que ela pudesse tirar um atestado de pureza racial que
permitiria o casamento de ambos, já que ela era italiana e ele alemão. (Não
foi possível, a morte foi mais rápida do que a burocracia totalitária e
absurda.)
Tentei traduzir uma vez e não fui além do primeiro capítulo. É um livro de
um jornalista francês, Dominique Lapierre, "Muito além do amor". Meu nome
figura (imerecidamente) nos créditos como tradutor com o mesmo destaque de
Ana Maria Sarda, que fez 90% do trabalho. Traduzir é difícil (e em geral
mal pago). Vejam só o que pode acontecer quando burros informáticos
resolvem achar que traduzir é mole e bolam programas de tradução
instantâneos que outros, mais burros (ou sovinas) ainda, usam.
Há alguns meses fui a Brasília e hospedei-me num dos hotéis mais finos da
cidade. À noite bateu a fome e resolvi consultar o serviço de quarto.
Comecei a ler o cardápio, cuidadosamente impresso, e fui ficando assustado.
Onde eles teriam arranjado tal tradutor maluco? Tudo era literal. O
contrafilé, em português, virou against filet. Creme Rachel, um tipo de
sopa, foi traduzido para It cremates Rachel. ''Creme'', substantivo, virou
verbo e a ordem era pegar a pobre da Raquel e metê-la num forno até virar
cinzas. Outro prato era à base de ''nobre corte de contrafilé''. O corte
da carne era nobre, mas o ''tradutor'' achou por bem transformar o adjetivo
''nobre'' em substantivo e deu num prato de canibal: nobleman cuts of
against filet, ou seja, ''cortes de contrafilé de nobre''.
Maminha de alcatra é outro pedaço de carne que pode ser muito traiçoeiro se
for traduzido literalmente. Vejam só. Em português o hotel oferece:
''delicada peça de maminha grelhada''. Maminha foi traduzido, ao pé da
letra, como breast, que em inglês significa seio, mama ou peito, mas jamais
um corte de carne. Imaginem o americano ou inglês horrorizado ao constatar
que pode pedir (e comer) delicate breast pieces griled, ou seja ''delicados
pedaços de seio grelhados''.
Mais estranha ainda ficou uma picanha na ''manteiga ao café de Paris''.
Paris, a capital francesa, metamorfoseou-se no verbo ''parir'', ''dar à
luz''. A coisa ficou assim em inglês (?): butter coffe of you give birth,
algo que - tentando verter para o português - resultaria em mais ou menos
isto: ''manteiga café que você pariu''.
Já imaginaram o gringo tentando entender frutas da estação (da primavera,
verão, etc., season em inglês), traduzidas como fruits of the station, ou
seja, da ''estação'' (de trem)? Tiras finas de carne resultam em fines
ribons of meat. Ribbon em inglês é ''fita'' e não ''tira''. ''Molho de
espinafre'' passa pelo mesmo processo maluco: o molho (substantivo), sauce
em inglês, vira wet, do verbo ''molhar'' e resulta em algo que até parece
inglês: I wet of spinach. A essa altura o hóspede deve achar que se internou
num manicômio e vai ter certeza quando perceber que lhe estão oferecendo
Pitus in coconut. (Continua no próximo domingo.)
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